domingo, 10 de maio de 2009

VIDA (para além da cortina...)


Eles estão sentados ali, naquela sala.

A sala é ampla, difícil de definir, pois não se sabe se a amplitude vem do tempo, que a fez maior do que ela realmente é, ou se é realmente ampla. Até o cheiro é de tempo, mas de um tempo para além do movimento dos ponteiros de um relógio, talvez porque as narinas já se acostumaram. A claridade era suficiente para aquelas pupilas dilatadas, o bastante para perceber o vermelho da cortina em frente, vermelho que, de tão brilhante, ofuscava as manchas verdes do mofo. Os corpos apresentavam uma sensação que nossa pobre literatura não é capaz de descrever, uma sensação entre o cansaço de desejar que nada mais existisse e fosse possível o descanso eterno, ou uma vontade louca de se erguer e descobrir tudo o que poderia estar por detrás daquela cortina. Mas o que se descortinava era apenas desejo, no fundo eles previam, sem enxergar, a desordem.

Eles se levantaram e começaram a caminhar rumo à cortina, sem saber, ao certo, de onde vinha a iniciativa.

Ao abrir a cortina, lá estava a desordem pressentida, mas, pela lei da inércia, subiram os degraus e começaram a arrumar aquela balbúrdia, sem ordenar seus atos.

De repente ela sentiu aquela estranha união entre os dois se quebrar e voltou ao centro da sala, movida pela mesma força que a tinha levado para junto da cortina, olhou em volta e se fixou em uma porta que, a princípio, era somente mais uma peça da decoração, caminhou em direção a ela e, movida apenas por impulso, colocou a mão na maçaneta e, instantaneamente, a porta já estava aberta.

Uma claridade atômica invadiu seu mundo e, durante alguns segundos, que duraram uma eternidade, seus olhos sentiram dor.

Em seguida, ela começou a perceber aquele ruído, que despertava em sua memória imagens de festas, conversas, movimento, desordem, diferente daquela desordem pressentida anteriormente.

O cheiro era de um odor tão familiar, que ela não acreditava o quanto, naquele momento, ele pudesse se apresentar tão peculiar.

Um vento e um calor de, provavelmente, início de primavera, pelo menos era o que ela queria acreditar, invadiu seu corpo.

Ela viu aquela correnteza urbana passar à sua frente e pulou de cabeça, na esperança de algum mar, deixando às suas costas a porta aberta, para que a inundação invadisse aquela sala, levando cortinas e quebrando janelas.

Ele? Continuava a sua arrumação insana, pisando em insetos, sem perceber, ou pior, sem entender o que se passava.

Este texto foi encontrado entre meus guardados, datado de 28/05. O ano? Não sei, provavelmente final dos 80, início dos 90.

2 comentários:

Fá Abdanur disse...

um belo achado perdido na imensidão do tempo hein senhor Julio..

Júlio Costa disse...

Procê vê néh!
O seu comentário me deu um "insight" de que vivemos não só o tempo presente, mas somos como uma gosma, que se espalha pela imensidão do tempo, passado e futuro, e, portanto, nada está perdido, no máximo diluído...